O estranho Sr. Deville – Capítulo 1
CAPÍTULO I
O cavalheiro de roupas escuras e sóbrias, capa e chapéu, entrou na minha loja e pediu um livro sobre Satanismo. Imediatamente, ofereci-lhe “Dogmas e Rituais do Alto Satanismo”, de Irwin Douglas Mcmillan, um inglês famoso no assunto. Eram 17:00h. Sentou-se numa mesinha no canto, isolada, perto da escada que vai para as estantes de livros, pediu um chocolate quente e começou a folhear o livro. Sempre tenho um exemplar separado para isso, caso o cliente tenha interesse em conhecer o livro antes de comprá-lo. Muita gente procura a minha loja por indicação de outros clientes e não conhecem o livro de antemão. Assim, ficam mais confortáveis folheando um livro e provando uma boa xícara de chocolate.
O cavalheiro era educado, silencioso e não pude deixar de notar uma estranha luminosidade que o acompanhava, quando entrou, mas que somente percebi quando ele se dirigiu à mesinha. Aquele canto meio escuro ficou bem diferente com a fraca luz que o preencheu e que me deixou muito intrigado. Contudo, não quis incomodá-lo, naquele momento, e deixei para mencionar isso mais tarde.
Um livro sobre Satanismo é sério, grave, escrito, muitas vezes, em segunda pessoa, de maneira rígida e formal, descrevendo vários rituais orgiásticos e perigosos, mencionando velhas tradições e costumes utilizados pelos seguidores de Satã ao longo dos tempos. McMillan era bom nisso. Seu livro ficou muito famoso não só pelo estilo impecável, mas também pela quantidade e precisão das informações sobre o assunto. No entanto, o cavalheiro, após folhear o livro por poucos minutos, começou a rir-se e eu não sabia de quê. Curioso, aproximei-me dele e perguntei:
“Com licença, senhor, qual o seu nome, por gentileza?” Ao que ele me respondeu:
“Por hora, pode me chamar de Deville”.
Continuei minha pergunta. “Mas o que pode haver de tão hilariante num livro sobre Satanismo, Sr Deville? Todos os livros sobre esse tema, que me passaram pelas mãos, específicos ou generalistas, não tinham nada de cômico. Ao contrário, sempre havia coisas enigmáticas, descrições de cerimônias de evocação do Demônio, rituais e orações, não havendo motivos para risadas”.
Ao que o cavalheiro respondeu:
“Essa sua dúvida é natural, meu caro senhor, mas eu sempre achei muita graça desse total desconhecimento dos homens a respeito de como invocar Belzebu. Tanta fantasia, com esses rituais e alegorias inúteis, sendo que nada disso é necessário. Os conceitos estão invertidos, os objetivos estão equivocados, em suma, está tudo errado”.
“E como, Sr Deville, o senhor pode saber o que é certo ou não, nesse caso?” – perguntei, com um certo ar de sarcasmo.
“Eu apenas sei” – respondeu o cavalheiro, tomando um longo gole do seu chocolate quente , que havia deixado esfriar, até aquele momento.
“Ora, isso não é uma resposta aceitável. Afinal, é preciso uma certa dose de informação objetiva para se ter certeza de algo. Intuição e achismos não valem” – observei com certa firmeza e, ao mesmo tempo, com uma expressão de riso.
“Ao contrário do que que o senhor possa pensar, é justamente o mais completo subjetivismo que me autoriza a afirmar que está tudo errado” – E, tomando outro gole do chocolate, o cavalheiro reclamou: “Mãe do Céu! Isso ainda está muito quente! Queimei a língua!”.
Achei estranho, pois sirvo chocolate a essa mesmo temperatura há anos e nunca alguém reclamou de ter se queimado.
“Se o senhor preferir, posso colocar numa xícara maior e mais fria”.
“Acho que vou aceitar, senão não vou conseguir tomar tudo. Aliás, está muito bom, o aroma chega a ser perfumado. O senhor colocou uma fava de baunilha no açúcar, não estou certo?” – O cavalheiro estava visivelmente animado.
“É verdade, seu paladar é bem apurado! É raro alguém perceber esse ligeiro truque que uso para intensificar o sabor do chocolate”.
“Para mim, o chocolate é como o vinho para o enólogo. Consigo identificar os vários sabores, suas variações e ingredientes adicionados, da mesma maneira que se identificam os sabores de frutas, madeira e terra dos vinhos. Na verdade, não bebo álcool, mas conheço o assunto”.
Eu ainda estava intrigado com aquela emanação luminosa, fraca mas constante, que rodeava o cavalheiro, mas aguardava uma oportunidade melhor para tocar nesse ponto. E, com um corte, voltei ao assunto anterior.
“Mas o senhor ainda não não esclareceu como pode afirmar que tudo está errado e como o subjetivismo entra nessa história”.
“O senhor não vai acreditar”.
“Por que não tenta? Quem sabe possa, também, me explicar algo sobre essa peculiar luminosidade que o acompanha desde que entrou”.
E aquele estranho cavalheiro continuou afirmando que eu não acreditaria se me contasse. Continuei insistindo, argumentando que não era justo fazer aquelas afirmações e, depois, não prová-las.
“Vamos fazer um trato” – exclamei. “O senhor me conta e eu lhe ofereço outra xícara de chocolate, na faixa”.
“Tudo bem, aceito. Mas não diga que não avisei”. – Fez uma pausa, suspirou, tomou outro gole e soltou: “Posso afirmar tudo aquilo porque EU SOU O DIABO!”
Aguarde o Capítulo 2 dia 11/11/2009
Ilustração: http://ax25.deviantart.com/art/The-devil-129962736






















Bem! não se torna um comentário, mas uma curiosidade quanto qual foi reação do dono da loja que narra a fatalidade?
Obrigada,
Lana.
Olá Lana, que bom que você se interessou pelo conto. Só que não vai ter graça eu contar a continuação só para você. Peço um pouquinho de paciência para aguardar o segundo capítulo e os demais.
Um abraço.
Salvador.
Oiii ^-^
Gostei daqui e do post
Vamos trocar banners ?
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Beijos :*
Olá Thais,
Legal saber que está gostando do blog. Não posso trocar banners com você pois não sou o administrador do blog, mas vou repassar seu pedido ao meu irmão, Ok?
Continue conosco. Em breve, PodCast!
Massa … Parabéns !
Li até o fim, bom trabalho.
Olá, Fred. Fiquei muito feliz com o seu comentário. Continue lendo os próximos capítulos e veja se vai continuar sendo do seu agrado.
Obrigado.
Um abraço.