O estranho Sr. Deville – Capítulo 8 FINAL

Autor(a): Salvador Laviano | Data: dez 24, 2009 | Categoria(s): Contos e Poesias, O Estranho Sr. Deville | 120 views |

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[Leia o início desse conto]

CAPÍTULO VIII – FINAL
“Na verdade, muitas destas coisas já estão sendo faladas há tempos. Certas religiões, que incluem a pluralidade das vidas, estão chamando a atenção dos homens para tais assuntos, com explicações que, ainda, muitos se recusam a aceitar. O momento é oportuno pois o mundo passa por tremendas mudanças de conceitos, uma tansformação gradativa Há uma revolução de tal ordem que tudo parece estar de cabeça para baixo. É comum as pessoas dizerem que ‘quem segue a Lei é tolo e somente irá se dar mal, ao passo que os transgressores é que se dão bem’, ou que ‘é tolice ser honesto pois os desonestos são muito mais favorecidos’.
Mal sabem eles o que estes ’sortudos’ receberão de troco, no futuro. E podem estar certos de que gente como grandes governantes, que têm a responsabilidade do sofrimento, vida e morte de milhões de pessoas, receberão o devido tratamento post mortem. E eles me farão, esperar muito tempo ainda para voltar para onde devo, enquanto aguardo purgarem todo o mal que fizeram.
Além disso, há as grandes mudanças no comportamento das pessoas. Já percebeu como o mundo, cada vez mais, se parece com um grande hospício? Como todos andam desatentos? Quantas vezes você precisa repetir a mesma coisa para as pessoas compreenderem? Não é preciso ir muito longe. Repare no garçom do restaurantezinho da esquina. Ele só ouve o início do seu pedido, o resto  passa em branco.  Você pode desenhar na parede que o pedreiro vai quebrá-la de modo errado. Ninguém entende mais ninguém devido à, cada vez maior, falta de atenção ao momento. Tenho certeza de que você mesmo, em várias ocasiões, saiu de um canto da casa para ir a outro cômodo e esqueceu o que ia fazer, ou o que ia pegar ou, pior, esqueceu algo que deveria ter levado e chegou com as mão vazias, sentindo-se um tolo assim que se deu conta.
Devemos lembrar do crescente fanatismo, que obnubila os olhos e o cérebro, deixa os seguidores irracionais e leva à catástrofe social. É patente o absurdo de como as pessoas seguem aproveitadores, que usam os sagrados nomes de Deus e Jesus para enriquecerem, sem que nem mesmo as outoridades judiciárias se dêem conta ou tomem uma providência. Está acontecendo algo semelhante ao que relatei antes com relação ao poder que a Igreja exerceu sobre as comunidades simples e incultas da Idade Média, só que, agora, é à luz do Sol dos séculos XX e XXI.
Paralelamente, idéias e conceitos, antes impossíveis de surgirem, estão nascendo em diferentes lugares do planeta. Técnicas biológicas antes sequer imaginadas são conhecidas por crianças do nosso tempo. A ciência avança a largos passos com idéias malucas e revolucionárias para explicar os mistérios da criação, deixando o homem a um passo de desvendar certos segredos importantes da natureza. Mas, somente quando a humanidade for digna, não antes.”
“Há algum sinal, algum indício de que as coisas, realmente, estão para mudar?” – eu estava muito entusiasmado.
“Você acha que tudo isso iria passar sem um acontecimento especial? É claro que tudo foi planejado direitinho. No magnífico mecanismo dos fenômenos astronômicos, o Pai Celeste nos reservou um marco, um evento para identificar esta época de efervescências conceituais, de mudanças de paradigmas e de novas idéias. Vou usar o seu vocabulário científico para que você identifique a que eu estou me referindo. É o alinhamento do sol com o centro galáctico, exatamente na chamada Fenda Escura, mais precisamente na constelação de Ophiúco, na ponta da flecha de Sagitário, a meio caminho de Escorpião, que está para acontecer, coincidindo com o fim do calendário de Grande Escala dos Maias.
Esses caras eram bons mesmo. Você, certamente, já  deve estar a par. Não demos nada para eles e veja aonde chegaram, só com os olhos nus. Pena que tivessem aqueles sacrifícios humanos, porque, em matéria de ciência, foram demais.
Mas isso é apenas uma alegoria cósmica. É um evento para marcar uma época. Não quer dizer que o lobo vai soprar e a casa irá pelos ares exatamente na manhã daquele esperado dia. É só uma referência, mas tem muita gente se aproveitando para enganar e intimidar pessoas  crédulas. Novamente a ânsia de poder sobre os simples.”
“E por que eu? Tanta gente por aí e você vem parar na minha livraria!”
“A causa de tê-lo escolhido para esta revelação, é o fato de você ser um estudioso do Ocultismo, do Satanismo, Bruxaria e uma pessoa que julguei ser de mente mais receptiva, embora tenha duvidado disso, no começo de nossa conversa. Além disso, você é um homem das palavras. Sabe lidar bem com elas e é capaz de descrever nosso encontro e  divulgá-lo. Faça isso e  eu lhe serei eternamente grato”.
“Eu não acho que tenha a capacidade de fazê-lo da melhor forma. E se as pessoas não acreditarem? E se elas se voltarem contra mim, dizendo que isso é mais uma obra do Maligno, tentando se passar por bonzinho? Será que elas não terão razão, não seria mais uma das artimanhas do Demônio para ludibriar os homens”?
“Meu caro, não há maneira de comprovar nada do que falamos. Isso é uma coisa que deverá ficar a cargo de cada um. Sua tarefa é, apenas, divulgar essa nossa conversa, O resto ficará por conta da consciência dos homens. Os que tiverem olhos para ver e ouvidos para ouvir, compreenderão”.
E, assim, o senhor Deville terminou sua última xícara de chocolate, deu um grande suspiro e levantou-se, arrumou a capa e o chapéu. Olhou para fora e disse:
“As horas se passaram e está quase amanhecendo. Há muita neblina, por causa do frio, mas é assim que eu gosto. Bem, adeus, meu caro. Tome esse dinheiro que deve ser suficiente para pagar todas as minhas xícaras de chocolate. Use com sabedoria as informações que lhe passei. Pelo menos, para você, elas serão muito úteis”.
Meio apressadamente, eu disse:
“Espere, Lúcifer, nunca mais nos veremos? Como posso chegar a você?”
“Muito fácil: esqueça o que estes livros falam. Faça uma oração ao Altíssimo e pense em mim. Eu, certamente, o ouvirei. E siga a sua consciência. É ela que você irá usar em seu benefício, ao chegar do outro lado.”
“Então…,então…, até um dia, Sr. Deville” – ele deu um sorriso.
Em seguida, a porta se abriu, Lúcifer voltou-se para mim, deu um aceno e saiu, enquanto sua imagem foi desaparecendo por entre a névoa da madrugada. Confesso que, naquele momento, eu não estava totalmente seguro de tudo aquilo não ter sido nada mais do que um sonho. Porém,  acho difícil alguém ter alucinações dessa ordem só com dois conhaques de boa marca. Tranquei a porta.
Ainda faltava algum tempo para abrir a loja. Sentei-me ao computador para escrever tudo de que me lembrava desse estranho encontro, o mais depressa que pude. Quando terminei, já estava na hora de abrir. Logo que destranquei a porta, entrou um senhor distinto com roupas escuras e sóbrias, capa e chapéu. Aproximou-se do balcão e disse:

“Você teria um livro sobre Satanismo?”

FIM

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Camilo
25/dez/2009 as 12:15

Parabés, Salvador. Gostei muito.
Abraços,
Camilo


 
Pasquale Laviano
30/dez/2009 as 10:17

Salvador, muito bom. Acho que você poderia escrever um livro usando esse conto como idéia central. Faria muito sucesso!

Abs


 
Salvador Laviano
30/dez/2009 as 20:46

Que bom que vocês gostaram. Valeu o esforço.! Obrigado.
S.


 

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