O estranho Sr. Deville – Capítulo 7

Autor(a): Salvador Laviano | Data: dez 22, 2009 | Categoria(s): Contos e Poesias, O Estranho Sr. Deville | 125 views |

__Lucifer_Overlooking_Hell___by_ViolistofHameln[Leia o início desse conto]

CAPÍTULO VII

“Uma das tarefas que O Senhor me deu foi tentar todos os homens. Como não existe o Mal, o que existem são pessoas que se deixam levar pelas tentações e agem mal, caindo em desgraça aos olhos de Deus. Sou um instrumento dEle para testar os homens e selecioná-los. Desse modo, cada vez que um ser humano cede à tentação, automaticamente lhe é atribuído um sofrimento futuro que poderia ser evitado, se não fosse fraco. Essa relação é de absoluta causa e efeito e me deixa penalizado. E o pior é  que isso me faz ficar mais tempo ‘longe’ do Paraíso, mas não posso interferir. As coisas devem seguir seu curso natural. Foi para isso que Deus  nos deu o livre arbítrio e deixou o barco correr, digamos assim. A boa notícia é que para cada planeta existe um anjo como eu , caso contrário, eu é que estaria danado. A tarefa não pára, pois planetas iguais ao seu vivem surgindo por aí. Alguém tem de assumir o emprego. Tudo eu, tudo eu! Isso seria injusto. Pelo menos o nível da Terra está para mudar. Isso já vai ser um grande alívio.”
“Como assim, ‘mudar de nível’? – perguntei, intrigado.
“É, o nível das almas que virão para cá está para ser elevado em alguns graus e esse montão de criminosos, corruptos, desalmados e assemelhados não terão mais lugar na Terra. Aqui será um mundo melhor do que é hoje, com as pessoas preocupadas em melhorar a si mesmas, principalmente, e os pecadores terão um lugar mais calmo para se regenerarem.”
Era mais uma revelação inusitada, mais uma informação interessante sobre o nosso futuro e nos dando um pouco mais de alento. E Lúcifer continuou:
“Uma vez que a alma pecadora entra na esfera dimensional do Inferno, tornando se uma alma danada, deverá ser supervisionada, enquanto paga sua pena. É aí que entram outras entidades que me auxiliam nesta tarefa e que os homens chamam de ‘demônios’ ou ‘espíritos maus’. Mas estão enganados, pois elles nada mais são que espíritos abnegados, muitas vezes almas que estão trabalhando comigo para resgatar mais depressa suas dívidas e retornarem para o curso normal de sua evolução.
Observe que na Criação, Nosso Pai estabeleceu um sistema em que todos estão trabalhando de alguma forma, não existe essa coisa de ficar no ócio eterno vestido de pijama, comendo uva e tocando harpa. Isso é a maior bobagem que eu já vi entre as inúmeras outras que o homem inventou”.
Aquela exposição era muito mais do que eu podia esperar de alguém como Lúcifer. Nunca senti tanta esperança no futuro como neste momento. Eu mesmo me sentia em estado de graça, e uma calma profunda me invadia completamente. E, ao mesmo tempo, sentia-me muito grato por ter o privilégio de ser o escolhido para receber estas informações. Mas eu ainda estava curioso com outro aspecto.
“Mas, diga-me, Lúcifer, como você passou a ter a imagem convencional de um ser maligno, com chifres e reinando num lugar em chamas eternas”? – perguntei, renovando a minha dúvida inicial. Ao que Lúcifer respondeu:
“Quando o homem primitivo começou a ter um sentimento de religiosidade, uma das primeiras coisas que fez foi dar um significado palpável às forças que julgava superiores. Assim, ele estabeleceu que deveria haver alguma divindade comandando seu destino e assumiu imagens de seres com chifres, pois estes eram, comumente, animais grandes, fortes e poderosos. É comum encontrarem-se desenhos e imagens de divindades com chifres nos achados arqueológicos.
Isso se manteve durante milhares de anos. Entretanto, quando surgiu a Igreja, havia uma disputa grande entre os sacerdotes das antigas religiões naturais e da nova religião cristã. “
“Mas para que essa disputa?” – perguntei, embora já soubessa a resposta.
“Disputa pelo controle das comunidades que, naquela época, eram compostas, na sua grande maioria, de pessoas simples e ignorantes, o que significa dizer, passíveis de  um controle mais fácil e eficaz do que quando as pessoas são mais instruídas. Você, e todo mundo, sabe que esta atitude acarretava, automaticamente, o arregimentamento de fileiras de alegres e diligentes trabalhadores e contribuintes para o poder central. O poder religioso foi, vagarosamente, se desenvolvendo em paralelo ao poder político, até um ponto em que ambos passaram a exercer este controle de modo equilibrado.
Por isso, cada vez mais os sacerdotes inculcavam nas pessoas que as antigas religiões eram ‘más’ e que a nova era ‘boa’. No início, os padres celebravam rituais tanto das antigas religiões, como da nova, mas foram, gradativamente, menosprezando umas em favor da outra.
Como a maioria das divindades antigas tinham chifres, as entidades chifrudas acabaram se tornando ‘más’ aos olhos das pessoas, por influência direta dos religiosos. Era uma conduta deliberada para criar o Mal, a um custo muito pequeno. Quanto ao fogo, todos os animais, inclusive o homem, têm medo dele. Nada melhor que um lugar em chamas e quente para assustar os homens e servir de morada para o Senhor da Escuridão. Aliás, Dante aproveitou magistralmente esse conceito ao escrever  a Divina Comédia.
Séculos e séculos de repúdio sucessivo dividiram as coisas em Deus, misericordioso, com a igreja, de um lado e o espírto mal, chifrudo, do outro. Assim, o Maniqueísmo, estabeleceu a divisão nítida entre Bem e Mal, com Deus e Lúcifer, em lados opostos, competindo pelas almas dos homens e estes servindo de títeres. Foi uma coisa meio azarada e triste, mas o que se há de fazer?”
A explicação era perfeita, com lógica e argumentos. E comentei que o controle das comunidades, por ambos os poderes, agia como um cabo de guerra, cada um exercendo suas ações sobre as pessoas a seu modo.
“Entretanto, – observou Lúcifer – , o poder religioso contava com mais um elemento de terror para a manutenção do status quo: a Inquisição. No final do século XII, a Inquisição tinha uma boa intenção em averiguar as situações de heresia, feitiçaria e coisas assim. Ainda havia alguns resquícios de religiões da natureza e era interessante que tais focos fossem sufocados. Mas perceberam que a Santa Inquisição poderia se tornar o instrumento perfeito para causar o medo. O medo gera a obediência. E a obediência gera a irracionalidade. A partir de meados do sécilo XIII, tudo ficou bem conveniente para o clero, quando somente a menção da palavra Inquisição petrificava as pessoas. Mais tarde, você bem sabe, um homem passou à História como o exemplo do poder dos Tribunais da Inquisição. Tomás de Torquemada, na Espanha, era tão influente e temido que rivalizava em poder com os reis da Espanha.
Se ele soubesse o tormento que o aguardava após sua morte, jamais teria pensado em se tornar um religioso, quanto mais um inquisidor. Agora eu tenho de tomar conta dessa alma infeliz por mais de…, bem, por muito tempo ainda”.
“E, por que você escolheu para revelar estas coisas agora?” – era a questão mais pertinente, naquele momento.

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Danielle
23/dez/2009 as 4:38

Também quero saber …


 

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