O estranho Sr. Deville – Capítulo 6

Autor(a): Salvador Laviano | Data: dez 12, 2009 | Categoria(s): Contos e Poesias, O Estranho Sr. Deville | 125 views |

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[Leia o início desse conto]

CAPÍTULO VI

“Em primeiro lugar, vamos esclarecer por que o Inferno não pode ser  um lugar. Vou usar um recurso lógico chamado ‘reductio ad absurdum’. Gostou do toque em Latim? Não combina bem com todo esse assunto de anjos e tudo o mais?”

“Muito bem. Redução ao Absurdo. Vamos lá, estou escutando”.

“É comum as religiões pregarem que quem não as seguir irá para o inferno. Como uma religião desconsidera todos os que não a seguem, a humanidade fica, então, separada em dois conjuntos: os crentes daquela religião específica e o resto do mundo. Não vamos nos esquecer dos ateus, dos agnósticos e dos selvagens que nem sabem o que seja uma religião, de acordo com o padrão do homem dito civilizado. Estes todos estão inclusos no resto do mundo. Assumindo que cada pessoa siga somente uma religião, não há zona de contato entre religiões, não há nenhuma interpenetração, o que implica que toda a humanidade acabará indo para o Inferno.

A própria aceitação da existência das almas, força a idéia de que elas tenham alguma consistência, algum conteúdo. Pela concepção atual dos que asseguram que ele exista, o Inferno somente recebe almas. Qualquer alma que entre nele não sai jamais. Portanto, se considerarmos uma entrada contínua de almas no Inferno, sem que nenhuma saia, para que a sua pressão e a sua temperatura internas fiquem estáveis, é necessário que o seu volume cresça de forma proporcional, para dar espaço às novas almas. Caso contrário, seu conteúdo irá se comprimir, cada vez mais, contra as suas paredes, até o ponto em que elas não mais serão capazes de segurar o seu conteúdo e o Inferno explodirá, como uma panela de pressão com a válvula fechada.

E isso não sou em quem fala, mas uma lei da natureza, criada pelo Altíssimo e que os homens de ciência conhecem muito bem.

Assim, seguindo este raciocínio, temos as seguintes opções. Se a expansão do Inferno for menor que a proporção de entrada de almas, o aumento da temperatura e pressão será tal que ele explodirá. Se for maior, ele irá se congelar, pois sua temperatura e pressão diminuirão, da mesma forma que ocorre numa seringa quando se puxa o êmbolo. E, finalmente, se for a mesma, ele irá se expandir até tomar todo o universo. Neste último caso, quem explica onde irão parar o purgatório e o paraíso? Para piorar, o purgatório seria um lugar transitório e, eventualmente, poderia deixar de existir, mas o paraíso também deveria ter a propriedade de receber almas que entram e jamais saem, à exceção de mim mesmo e alguns meus seguidores, segundo a tradição religiosa vigente, certo?

 Além disso, como se pode explicar, baseado nesta linha de pensamento, que almas iluminadas como Buda, Jesus e outros não tenham alternativa senão acabarem caindo no Inferno, que tomou todo o espaço disponível? E, de acordo esse mesmo raciocínio, esta situação acabaria se reduzindo, exatamente, à segunda opção, uma vez que como todo o espaço disponível será preenchido, ele acabaria explodindo mais cedo ou mais tarde.

Você deve concordar comigo que assumir que o Inferno e o Paraíso sejam  lugares nos leva a conclusões incongruentes e absurdas. Está demonstrado. QED, ‘quod erat demonstrandum’, para fechar com chave de ouro”.

Eu tinha de concordar que Lúcifer tinha um bom argumento. Aceitei esse ponto da discussão e perguntei:

“Então, se o Inferno não é um lugar e, sim, uma condição, qual o seu papel nisso tudo”? Ao que lúcifer respondeu:

“Ao contrário do que os homens pensam, quando o Senhor do Tempo me ‘enviou’ ao Inferno, ele não estava me castigando, mas, ao contrário, dando-me um presente, ou, melhor dizendo, incumbindo-me de uma tarefa que somente um anjo que atingiu um certo grau de evolução poderia assimir: a tarefa de cuidar das almas danadas até que o resgate de suas dívidas fosse completado e elas pudessem voltar para o caminho da evolução crescente e, ao final, não restasse mais nenhuma alma nesta situação. Virtualmente, até que a condição de  Inferno não fosse mais necessária”.

“Quer dizer que, um dia, o Inferno vai desaparecer?” Aquela revelação acabara de me deixar estupefato, mais uma vez.

“Certamente! Embora algo que não exista não possa desaparecer. Na verdade, o correto seria dizer que a condição de almas danadas, na Terra, não mais existirá. E quando isso acontecer, a minha supervisão não será mais requerida e poderei voltar para junto de Deus Nosso Pai, para desempenhar alguma nova tarefa para a qual ele me designar”.

Aquilo estava ficando cada vez mais interessante. Havia tantas perguntas a fazer, mas só consegui pensar em: “E como é essa sua supervisão”? E Lúcifer continuou:

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Camilo
13/dez/2009 as 9:16

Boa Salvador, está indo bem!
Abraços,
Camilo


 

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