O estranho Sr. Deville – Capítulo 4
CAPÍTULO IV
“O homem assumiu uma idéia estranha de que o universo é divido entre Bem e Mal. Não sei se ele pensa que sejam duas coisas diferentes ou duas manifestações de uma mesma coisa”
“Você tem razão. O homem tem o costume de fazer dicotomias e a ciência o ajuda, algumas vezes. Já sabemos que matéria e energia são duas manifestações da mesma substância física a qual, no entanto, nunca poderemos saber qual é. Da mesma forma espaço e tempo, onda e partícula, masculino e feminino, Yin e Yang…”
“Isso mesmo. Einstein e aquela turma do começo do século XX foram muito espertos. Mas no caso do Bem e do Mal não funciona da mesma forma. Bem e Mal não são duas coisas diferentes, pois o Mal não existe.”
“O que você quer dizer com isso? Basta ligar o rádio, no jornal da manhã, ou a TV ou abrir um jornal e começa a jorrar sangue, pois só há desgraça para todo lado!”
E, olhando para o Nada, com um leve sorriso nos lábios, Lúcifer continuou:
“Pense na escuridão. Ela não existe como objeto natural. Não se pode estudar a escuridão, somente a luz. Basta acender um pequeno e simples fósforo e a escuridão se vai. Calor e frio são assim. E Bem e Mal também. O Mal parece que existe quando o Bem está ausente.”
“Então o Bem está muito ausente e já faz tempo! Ele está precisando dar uma passadinha pelo Planeta Terra e dar o ar de sua graça, pois está difícil até mesmo de saír à rua.”
“Você está enganado. O Bem está aí mesmo, está, por assim dizer, batendo nas fuças do homem. Ele é que não dá chance do Bem se manifestar. E, por isso, por essa atitude estúpida, imbecil e idiota do homem, eu ainda estou onde estou e não consigo mudar de condição.”
Nesse ponto, a minha pequena e ingênua Lógica foi-se. Pedi licença a Lúcifer para me servir de outro conhaque, antes que ele continuasse. É incrivel como um gole de conhaque pode fazer maravilhas quando você está à beira de um colapso! Em seguida, fui como que obrigado a dizer:
“Lúcifer, eu não acompanhei direito esta sua última afirmação. Dá pra você ser mais claro?”
“Muito bem, – disse ele – vamos reescrever o que Milton disse. Aliás, é necessário redefinir tudo o que a Filosifia e a Religião falam sobre mim e o Inferno, pois eu garanto que é cem por cento bobagem. Espero que você tenha mais chocolate, pois vai ser uma longa e fria noite.”
E, assim, servindo-se de mais uma xícara de chocolate, Lúcifer começou o que seria a mais incrível exposição a que eu assisti em toda a minha vida.
“Vamos começar destruindo esta absurda idéia de Paraíso e Inferno que vocês têm.”





















