O estranho Sr. Deville – Capítulo 2

CAPÍTULO II
É claro que o que eu pensei, na hora, foi que não me faltavam mais loucos na minha loja. Já tinha ouvido de tudo, mas essa era nova.
“Ah! Tá certo! Eu sabia que aqui dentro estava fazendo muito calor! É tudo culpa da Internet! Escute aqui! Você acha que eu sou algum idiota?” – perguntei, visivelmente alterado.
“Eu disse que o senhor não iria acreditar.”
“Tá bom, tá bom. Então você é o Diabo e eu sou Deus, ok?”
“Por favor, não brinque com o nome do Senhor Nosso Pai. Lembre-se do segundo mandamento.”
Nesse momento, fiquei mais confuso ainda. Um sujeito esquisito entra na minha loja, pede um livro de Satanismo, ri às baldas, diz que tudo o que está escrito é bobagem, afirma que é o Diabo em pessoa mas reclama que o meu chocolate está quente demais, não bebe álcool e ainda pede para eu não brincar com o nome de Deus, que chama de Nosso Pai! É claro que eu precisava de um conhaque.
“Escute aqui, Sr. Deville, se você fosse mesmo o Diabo, sua aparência não deveria ser diferente?”
“É mesmo? E como eu deveria me parecer?” – agora, ele tinha uma expressão de sarcasmo.
“Ora, você sabe, chifres, barbicha, tridente, roupa vermelha, essas coisas. Além disso, aqui deveria estar um forno e você não deveria se preocupar com o nome de Deus.”
O cavalheiro deu uma grande gargalhada, enquanto dava alguns tapas em seu próprio joelho.
“E eu que escolhi você porque achei que fosse diferente dos outros, que por lidar com todo esse material esotérico, de ocultismo e satanismo, tivesse uma visão mais aberta, mais receptiva. Vejo que me enganei.”
Após um longo gole de chocolate, ele continuou:
“Então, não posso ter pele branca, ser loiro de olhos azuis, sem chifres, ter um casaco preto e ter um cortador de unhas ao invés de um tridente. Deveria soltar fogo pelas narinas e mencionar Deus seria uma espécie de blasfêmia às avessas. Você esqueceu de dizer que eu poderia ser um bode, da cintura para baixo. Não acha tudo isso um clichê muito lugar-comum?”
Realmente, ele tinha razão. Mas foi o que me veio à mente, de imediato. Talvez fosse pela tradição, martelada sempre e sempre nas nossas cabeças, desde a infância. Em princípio, o Diabo poderia ter qualquer imagem. Nesse momento, ele me fez uma pergunta crucial.
“Você está com medo de mim?”
Aquilo pegou-me desprevenido. Até aquele momento, eu não havia me dado conta de que não estava com medo. Hesitei antes de responder.
“Na verdade, percebo que não estou com medo, embora eu ache que deveria.”
“Pelo menos, um ponto a meu favor” – falou com alívio.
“Mas senhor Diabo…” – ele me interrompeu.
“Por favor, pare. Vamos pôr um pouco de ordem nessa conversa. As primeiras coisas, primeiro. Permita-me que eu me apresente, devidamente. Embora você já saiba, meu nome verdadeiro não é Deville; é Lúcifer, a despeito de todas as outras alcunhas desagradáveis pelas quais sou conhecido. Não é nessário usar ’senhor’, só Lúcifer está bem.”
“Muito bem, Lúcifer – inciei, novamente – pode me explicar o que está acontecendo e o que, exatamente, você deseja de mim?”
Embora estivesse muito cético a respeito de tudo aquilo, comecei a ficar um pouco alarmado. Seria ele, mesmo, o Demônio? Nunca se sabe!
“Antes de mais nada, vou tirar sua dúvida sobre a luminosidade que me acompanha.”
Agradeci, interessado. Realmente, era um bom truque, pois eu não consegui identificar nenhuma fonte luminosa que a gerasse.
“Isso foi um presente de Deus Nosso Pai – lá ia ele, de novo – quando fui elevado à categoria de anjo. Por isso, meu nome significa ‘o portador da luz’, mas isso você já sabe. Ela é resultado de pequenas emanações de energia que todo o meu ‘corpo’, por assim dizer, produz, resultando numa luminosidade superficial sobre a qual eu não tenho controle. Eu sou assim.”
Era muito estranho ouvi-lo chamar Deus de ‘Nosso Pai’. Parecia conversa de louco.
“Mas, se você é mesmo o Demônio, você reina sobre a escuridão! Que é isso de chamar Deus de ‘Nosso Pai’ e de luz que o acompanha? Isso está errado!”
Aguarde o Capítulo 3 dia 18/11/2009





















Breve espero o capitulo 3, mandem quando poderem, por favor!
obrigada,
Lana.
Oi Lana, estou feliz por você estar se interessando pelo conto.
Espero que o próximo capítulo também seja de seu agrado.
Salvador
Salvador, muito legal!
Quero ver a continuação, porque seu público deve ser bem heterogêneo. Que tratamento você vai dar às mais diversas crenças no ‘coisa ruim’?
Abraços,
Camilo
P.S. Estou imaginando pelos menos mkais uns dez capítulos (hehe)