Lig, lig, ligs e a cidadania italiana

Priscila Manni em 14 jul 2006 | 189 views |

Você se irrita quando fica preso no trânsito em pleno verão sem ar condicionado? Fica nervoso quando vai a um restaurante, morrendo de fome, e demora uma hora pra ser atendido? Não pode pensar na idéia de pegar o metrô na estação da Sé às seis da tarde? É porque você ainda não viu uma colônia chinesa inteira pedindo um visto italiano.

- Senhor, não é aqui que fazemos esse serviço.

- Mas você pode fazer pra mim?

- Não, senhor, isso é feito na prefeitura.

- Mas olha aqui meu documento.

- Eu estou vendo, o senhor deve ir à prefeitura.

- Não pode fazer mesmo?

- Não.

- Mas é que só falta esse papel aqui ó.

- Dio mio, como faço pro senhor entender? Não é aqui, eu não posso te ajudar!

- E onde devo ir?

- NA PREFEITURA

A sala de espera era pequena, com as paredes pintadas de amarelo claro. Uns trinta chineses (que, muito provavelmente, madrugaram no lugar) esperavam na minha frente, com a senha na mão, sentados e de pé, ocupando quase toda a saleta. O escritório onde dois funcionários atendiam não tinha porta e um monte de cabeças chinesas fazia escadinha pra espiar o que se passava lá dentro.

Quanto mais os minutos iam passando mais colegas chegavam e se misturavam com um ou outro árabe. “O que estou fazendo aqui?”- pensei, sabendo que iria esperar horas pra finalmente ser encaminhada pra outro lugar, que me mandaria a outro, que me diria pra voltar na semana que vem.

De repente, o lugar virou uma baderna incalculável. Os chineses foram ficando impacientes, enfiavam a cabeça na sala dos funcionários e gritavam uma pergunta, furavam a fila. Eu comecei a perguntar quem era número o que, já que – PASMEM – há uma máquina de senha, mas não há o monitor ou nada que chame pelos números.

Um dos funcionários teve que subir numa cadeira, no meio do bolo barulhento de olhos puxados, e dar uma explicação geral, que era mais ou menos esta: “não fazemos mais esse serviço aqui”. Mas eles não desistiam, insistiam, insistiam, insistiam.

Eu tive vontade de chorar, de gritar, de ir embora, tudo ao mesmo tempo. Queria jogar uma bola gigantesca e fazer boliche com aquele monte de gente pedindo, passando na minha frente, enfiando a cabeça na sala dos funcionários. Respirei fundo e decidi me juntar à colônia, quem sabe, por sorte, se eu puxasse os meus olhos com as mãos, poderia me passar por um deles e começar a fazer balburdio também.

Um dos funcionários, um homem muuuuuito paciente (eu não teria 1/10 da paciência dele), me olhou no meio daquela foto de Taiwan, e perguntou:

- O que você ta fazendo aqui?

- Sou brasileira, minha família é italiana e eu…

- Brasileira??? Fala português???

- sim, sim.

- Espera então ali que eu já te atendo.

O já, muito otimistamente, levou umas 2 horas, nas quais eu fiquei pensando o que aquele homem, que parecia um imigrante africano e que falava português, fazia num escritório do governo italiano? Tive tempo pra pensar em muitas outras coisas também, na minha viagem a Roma, se todo o esforço pela cidadania valeria à pena, senti saudades da minha família, reparei que estava usando o anel que ganhei da minha tia de formatura e que eu acho que me dá sorte…

Imersa nos pensamentos, me dei conta de que o lugar foi esvaziando, o silêncio foi tomando conta da sala de espera. Eu era a única que ainda esperava.

“Sou todo seu”, me disse o homem. “Vamos sentar ali”. Eu comecei a explicar, em português, que já tinha ido a tantos lugares diferentes, que não sabia o que fazer, que me mandaram ali pra pedir uma permissão pra ficar na Itália, mas que, na verdade, eu não queria ficar, queria a cidadania.

- Você veio ao lugar errado…

Eu quis sumir, pensei “chega, desisto, estou cansada de correr atrás de tudo sozinha, dá muito trabalho ser italiana, européia, a porcaria que seja…”

- … mas posso te ajudar!

Uma luz brilhava no final do longo túnel chino-italiano. “Pode me ajudar? O que? Uma alma bondosa? Quando? Como? Onde? Por quê?”

- Na verdade, você deveria ir a um outro escritório nessa mesma rua, mas errou o número. Nós somos um sindicato que ajuda imigrantes que querem permissão pra ficar aqui. Seu caso é um pouco particular, você quer a cidadania, mas eu tenho contatos, posso te ajudar.

E ele, então, começou a fazer ligações e escreveu uma lista de tudo que eu precisava, dos nomes dos lugares, indicações, endereços, o verdadeiro mapa do passaporte italiano.

- O que você faz?

- Sou jornalista.

- Melhor ainda, podemos ajudar um ao outro.

E me disse que é de Angola, explicou que trabalha também ajudando a divulgar a cultura africana no mundo, que procura comunidade de africanos em outros países.

- Já que você é jornalista, pode me ajudar, eu tenho um site…

Eu disse que o ajudaria assim que chegasse no Brasil e perguntei o nome dele.

- Aladino, como o da lâmpada mágica, brincou.

E eu agradeci ao gênio, aos anjos, aos dragões e ao yakissoba que aquele homem apareceu na minha frente.

 

S C O A

Priscila Manni em 12 jul 2006 | 188 views |

Achei que não podia existir lugar mais caótico que o centro de Nápoles, mas agora tenho a plena convicção de que eu andava por Londres até hoje para ir e voltar da escola.

A aventura começou no metrô, até aí, tudo bem, até organizado demais para a habitual desordem napolitana. Do metrô, tive que pegar um trem, numa estação maluca, que tem uma plaqueta com 20 símbolos diferentes (como se fossem universais e todos soubessem e quisessem saber que uma casinha significa que há um museu na região). Depois de passar por duas esteiras rolantes e me informar sobre a direção, subi as escadas e a saída estava atrás de mim. Virei e o que vi foi a perfeita imagem do caos.

Dezenas de motoristas amontoavam seus carros em quatro filas e buzinavam impacientemente, desculpem, desesperadamente. Uma multidão se espremia pra tentar entrar em um dos 20 ônibus amarelos parados no centro da Piazza Garibaldi. Na frente da estátua do próprio, uma gigantesca obra, com barulho de escavadeira, de furadeira, pó, fumaça. Vendedores ambulantes ofereciam aos berros de peixe vivo à bolsa falsificada. Mendigos imploravam por um trocado. Um bolo de táxis esperava alguma alma perdida que, assustada com a confusão, escolhesse continuar o trajeto de carro.

É impossível, mesmo que eu desenhasse, explicar o que estava no centro, o que estava à direita, à esquerda, embaixo e em cima. Era um bolo de gente, carro, ônibus, reformas, produtos, poeira.

As ruas não têm faixa de pedestre, não têm semáforo, quase não têm calçada. Lembrei do meu amigo inglês, o Will, que me disse um dia que para atravessar uma rua em Nápoles basta se fingir de cego. E é isso mesmo que os napolitanos fazem e, se você hesita, pode ter certeza que passará horas em cima de um filetinho de asfalto, esperando sua vez – que, a propósito, nunca virá.

Eu já sabia que tirar a cidadania teria a mesma proporção de burocracia que a cidade tem de desordem. Ao ligar me mandaram no comune, no centro, de lá, me mandaram na prefeitura na praça Plebiscito, um pouco distante, de lá, me mandaram pro escritório de imigração, na Praça Garibaldi (a 3 estações de metrô, 2 de trem e meia hora de caminhada do centro). Finalmente quando achei que estava no lugar certo, depois de tirar a minha senha e esperar vinte pessoas serem atendidas, tive a feliz notícia que de lá eu deveria ir a outro lugar. “Mas é perto, não se preocupe”, me disse o alegre senhor.

E lá fui eu andando debaixo do sol de 40 graus, atravessando as ruas feito cega, dizendo “non, grazie” a panfletos, frutas, camisetas, alho, papel higiênico, protegendo a bolsa dos olhares interessados, atenta à possibilidade de por algum acaso do destino existir alguma placa sobre a minha cabeça me indicando o nome da rua.

“Volte amanhã, às 3 e meia, ok?” Ok, senhor, obrigada. Amanhã eu volto às 3 e meia em ponto pra esperar ser atendida até umas 5 da tarde e ir e voltar entre o amontoado de carros, a multidão que espera o ônibus, o bolo de táxis, a obra barulhenta e cheia de fumaça, os vendedores que não sei se parecem polvos ou árvores de natal, as ruas sem semáforo e sem faixa de pedestre, pra escutar que eu devo me encaminhar a um quinto lugar, que, talvez, me mandará ao sexto, que me dirá pra voltar outro dia em outro horário.

Posso imitar o Zé Simão??? “nóis sofre, mais nóis goza” e o bigbrotheriano? “Fais parrrte”

 

A vitoria e o Brasil de Téo

Priscila Manni em 10 jul 2006 | 159 views |

Verde, vermelho e branco por todas as ruas. “Pó poro pó pó po pó po…”, cantam os italianos. Depois de 24 anos, são campeões do mundo e os jornais deixam claro “na nossa frente, só o Brasil, com cinco vitórias”. A festa de ontem me deixou um pouco menos triste com o vexame brasileiro.

Jogaram duro, sofremos nós – que somos de outra nacionalidade, mas torcemos pela Itália – e eles, os italianos. Mereciam a vitória, fizeram valer cada minuto em campo.

Em Nápoles uma multidão lotou a Piazza Plebiscito. Bandeiras e fogos de artifício, cerveja e música napolitana. Uma festa como poucas vezes se viu.

Hoje, acordaram de peito estufado, orgulhosos, animados. Azul é a cor! O verde e amarelo terá que esperar outros quatro anos.

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“Você é brasileira???” – todos me perguntam com cara de espanto. No primeiro dia de aula, Téo, também brasileiro, me contou que mora no interior de São Paulo e veio a Nápoles por um intercâmbio da igreja, onde é um frade franciscano.

Ele tem 34 anos, é negro, um pouco tímido. Vem de uma família muito pobre, tem dez irmãos e mais de trinta sobrinhos. Eu e ele. Duas realidades completamente diversas, saídas do mesmo país.

O suíço, cheio de preconceitos, ouve minha história, ouve a história dele, olha pra ele, olha pra mim, olha pra ele de novo e não entende. Se gaba de ter escolhido uma vida sem TV e eu – que ando com a língua afiada – explico que, mesmo que pareça contraditório, tem gente no Brasil que não pode se dar ao luxo de não ter uma televisão. As razões? Muitas. Não têm acesso à informação como ele (internet, rádio, os melhores jornais e revistas), não têm esse nível cultural de quem sabe discernir quando um programa é bom ou não, não têm férias nos Alpes, em Capri nem ao menos jogam tênis durante a semana.

Téo foi o primeiro a fazer uma apresentação em italiano. Eu, ainda sem uma decisão sobre o que falar, estava evitando ligar o Brasil à pobreza, ao samba ou a futebol. É a triste imagem que todos fazem do nosso país aqui fora – apesar de eu saber que em alguma parte é natural que pensem assim.

Porém, a minha cara, a minha bagagem, a minha cor já são a própria contradição do estereotipo brasileiro. Eu sou a negação daquilo que os estrangeiros menos informados pensam que sabem sobre a nossa pátria.

Hoje Téo escancarou o Brasil a ingleses, austríacos, suíços, italianos, russos. Falou da pobreza, falou do desemprego, falou da desigualdade social, da prostituição infantil, das favelas do Rio, do tráfico, da corrupção. O bancário suíço ia se encolhendo na cadeira, perdendo qualquer argumento. Téo falava cada vez com mais propriedade. Vez ou outra usava a própria família, os amigos e conhecidos como exemplo e me olhava buscando apoio. Eu tentava complementar a exposição com algumas informações, mas ia me sentindo cada vez pior.

De repente me dei conta de que eu não fazia idéia do que Téo estava falando. O que eu podia dizer? Nunca passei fome, nunca dormi na rua, meu pai nunca ficou desempregado. Eu fui à escola, fiz faculdade, falo inglês, espanhol, um pouco de francês, estou aprendendo italiano. Conheço bons restaurantes, durmo em uma cama quente, tenho plano de saúde.

O frade franciscano terminou a aula com a classe boquiaberta. Sua grande preocupação é dar oportunidade a quem, como ele, não sabia ao menos escrever essa palavra. Ensina, trabalha duro, ajuda com o “pouco” que tem. E a gente perde a noite porque não sabe em que banco abrir uma conta, em que universidade estudar ou a próxima viagem que queremos fazer.

 

Pedacinho do mundo…

Priscila Manni em 9 jul 2006 | 174 views |

Sarah e eu acordamos cedo. Ainda com sono, levamos uns quinze minutos pra entender o porto de Napoli. Qual companhia era qual, se tinha passagem mais barata, a que hora partiam os barcos e a que hora voltavam. Um amontoado de pessoas, debaixo de um calor infernal, fazia fila nos guichês das empresas de navegação.

Logo entramos no barco, moderno, com espaço pra mais de 150 pessoas, com poltronas estofadas, ar condicionado, TV, bar.

Chacoalha daqui, chacoalha dali, meu estômago deu sinal de vida. “Vou lá fora, não estou me sentindo bem”, expliquei em inglês a Sarah. Na parte de trás do barco, algumas pessoas se equilibravam de pé, outras improvisavam um banco. Uma mulher loira, magra, bronzeada, nos seus 40 e tantos anos, fazia graça com uma garrafa pequena de vinho a um jovem italiano. Uma mãe insistia que a filha debruçasse na grade pra olhar a água e em dois minutos a menina foi levada às pressas ao banheiro.

Eu respirei fundo, olhei para a cidade, que ficava cada vez mais longe e pequena. Um italiano, usando Havaianas, me perguntou se eu era americana e me explicou que pegava o barco todos os finais de semana para trabalhar. Vez ou outra um japonês, de óculos e sandálias de borracha, se aproximava com cuidado, suspendia a máquina que carregava no pescoço e tirava uma foto. Aos poucos o barco foi diminuindo a velocidade.

O paraíso está a apenas trinta minutos do porto de Nápoles. A água é azul turquesa, não é muito quente nem tanto gelada. Pedras e grutas formam pequenas piscinas artificiais, as árvores têm um tom único de verde. Nas praias não há areia, mas pedras. Quando se deita, os olhos alcançam, além do azul, as majestosas casas que se exibem no topo das montanhas.

É como estar perdido, imerso num dos lugares mais lindos do mundo. O preço de cada bebida, comida, suvenir corresponde exatamente à beleza de Capri. Mas pra quem quer conhecer não é preciso muito, há que se levar apenas os olhos, a alma aberta e uns trocados de euros pra subir de trem até o topo da ilha.

A pequena e charmosíssima praça principal faz vista pra um infinito de inspiração. É preciso puxar o ar e suspirar incontáveis vezes de lá de cima.

Restaurantes rodeiam toda a ilha. No meio das bolsas Prada e lingeries La Perla, as Havaianas verdes, azuis, brancas e amarelas custam em torno de 30 euros e todos os pés que passeiam por Capri as usam. “Essas com as bandeirinhas estão esgotadas na Holanda” – me explicou Sarah, também exibindo os famosos chinelos brasileiros. Falar inglês é quase obrigatório, principalmente aos garçons, vendedores e taxistas – que rapidamente te informam – “Até Miqui Iajer (sic) tem uma casa aqui!”

Mas quando se desce uma das pequenas escadinhas de pedra (depois de recusar educadamente um lugar numa espreguiçadeira por 14 euros) e se encontra um espaço no meio dos turistas (na praia pública) pra estender sua toalha e deitar, é possível encontrar um pouco de paz.

Imersa na água cristalina, no meio das rochas, eu fechei os olhos e tudo que estava fora (os pensamentos inquietantes e o burburinho dos turistas) se calou. Tudo ao redor desapareceu. Era só eu, esquecida, num pedacinho de paraíso do mundo.

 

Sozinha em Napoli

Priscila Manni em 7 jul 2006 | 151 views |

Na mesa se falava holandês, inglês, francês, japonês e se treinava algumas palavras italianas. Comia-se macarrão, frutos do mar, carne e se bebia vinho. Uma menina magra e de olhos muito azuis da República Tcheca olhava pro lado direito, pro lado esquerdo, pra frente, fazia cara de quem não estava entendendo nada e enfiava um pedaço de pão na boca.

Neste grupo peculiar quase todos já viajaram o mundo inteiro, são de mente muito aberta, ensinam inglês na África, trabalharam com a Organização mundial de Saúde, estudaram em Oxford. Agora estão sentados num restaurante minúsculo, escondido entre as ruas estreitas e as construções milenares no centro de Nápoles.

Carregar sua cultura pra outro país traz sensações muito diversas. É curioso como aos poucos aquele sentimento de extraterrestre (você não entende a língua, todos te olham, sua roupa é estranha, você anda engraçado pela rua, você olha tudo ao redor) vai se modificando. Quando menos espera, você aprendeu a fazer parte, a se misturar entre a multidão que desce apressada a Via Toledo, a pedir um café curto. Aprendeu o real significado de “bravo”, aprendeu a diferenciar quando falam italiano e napolitano e o que o gesto de levar o dedo indicador à bochecha significa. Aprendeu até a atravessar a rua como faz um napolitano (quase parecido com a roleta russa… fecha os olhos e torce pro carro parar!).

O que é característico de Nápoles está por toda parte, até no Museu Nacional. Esculturas do Egito e mosaicos de Pompéia estão espalhados por todos os lados, sem qualquer organização, pedaços de papel escritos à mão te orientam que aquela obra representa Dionísio e é de algum século antes de cristo. Alguns visitantes até tocam preciosidades que deveriam estar guardadas de qualquer suspiro humano que fosse.

De repente, Sarah, uma professora holandesa, muito bem-educada, com as unhas e o cabelo impecáveis, que fala baixo e nunca se esquece de agradecer, deixa uma das salas de tesouros egípcios e pára boquiaberta no corredor, a cara era de quem acabara de ver uma múmia dançando hula-hula. Um funcionário do museu está sentado em cima de uma escultura milenar e fuma, despreocupado, seu cigarro. Dá um trago e bafora na estátua, outro, e bate a cinza no chão. Sarah não entende, me olha com cara de espanto, mas deixa pra lá e continua a visita.

Vez ou outra as diversidades te fazem lembrar que, por exemplo, seu país acorda, enquanto você almoça, que o calor de 40 graus e o dia longo (que só escurece às 21:00) te provocam cansaço, que você se explicaria muito melhor na sua própria língua, que a sua cama tem o seu cheiro e o seu travesseiro. Mas em alguns minutos toda essa sensação passa e você se pega de novo perdido na multidão, correndo para pegar o metrô e lendo uma notícia de jornal intitulada “Città malate di smog e rifiuti”.

Sem perceber você se dá conta que se basta, que é capaz de criar uma nova rotina em qualquer situação, que se integra mais fácil do que imagina e que, talvez, na próxima vez que a Sarah vir um homem fazendo pouco caso de uma obra de arte, o chame de estúpido, discuta em voz alta e acabe nos beijos e abraços, como qualquer bom napolitano.

 

Napoli… basta!

Priscila Manni em 5 jul 2006 | 160 views |

“Por que Napoli?” – pergunta a professora no primeiro dia da aula de italiano.

Em seguida, uma resposta austríaca, três respostas inglesas, duas brasileiras, uma bielorussa e uma suíça que giram em torno da cultura, curiosidade e da família.

Motivos diversos que trazem a bagagem de pessoas de todas as partes do mundo a uma cidade que exala história. Exala e guarda desde os primeiros séculos antes de cristo o que lhe faz ser tão peculiar.

Nápoles (como é escrita em português) foi primeiramente chamada de Neapolis, que significa “nova cidade”. Na metade do século IV a.c. ganhou castelos, palácios e grandes mansões de imperadores e patriarcas romanos.

Nas ruas estreitas, as igrejas e construções milenares ainda estão preservadas e são o orgulho de uma cidade que se tornou grande sem destruir o passado. Nápoles passou pela peste, pela erupção do Vesúvio, pelas guerras (só na Segunda Guerra Mundial foi bombardeada mais de 120 vezes), pela reforma da igreja, por invasões européias.

No centro histórico, até uma cidade subterrânea virou museu a céu aberto. São buracos em todas as partes com colunas e muros de alguma construção longínqua preservados.

Aqui se fala italiano e napolitano – um dialeto quase incompreensível até para quem fala bem a língua italiana. Os napolitanos estão sempre prontos pra ajudar, dispensam o “muito obrigado”, se irritam em 2 segundos e voltam a rir em um e meio.

A cidade atrai turistas tanto pela história quanto pela beleza da costa e das ilhas – a mais conhecida, Capri, para onde vão ricos, jovens e famosos.

Numa só rua é possível encontrar mais de 10 pequenos e charmosos cafés e umas 20 pizzarias. A famosíssima (e verdadeira) margherita encanta os paladares mais apurados. As tratorias escondem os grandiosos salões atrás de portinhas minúsculas. Recebem bem os turistas, que levam tempo pra escolher o prato num cardápio escrito a lápis e à mão, mas se surpreendem com a pasta – principalmente a com frutos do mar.

O bancário suíço já voltou 5 vezes, a jornalista bielorrusa largou tudo, casou com um italiano e mora num barco, dois ingleses também mudaram de vida e ganham dinheiro dando aulas pra italianos, o brasileiro mora em um monastério napolitano. Logo se vê que não precisa de motivo muito detalhado para estar aqui. Napoli é Napoli e isto já basta.

FORZA AZURRO!!!!!!!!!! OS ITALIANOS FORAM à LOUCURA ONTEM!!!!!! DEPOIS CONTO MAIS DA FESTA ITALIANA!!!!!!!!!!

 

A zuppa, a pizza e o samba

Priscila Manni em 3 jul 2006 | 161 views |

Desmoralizada. Ainda com a blusinha branca, bordada com um coração verde e amarelo entrei num dos restaurantes mais típicos de Nápoles, minutos após o jogo Brasil x França. “Brasiliana, brasiliana, non piangere!”, fui recebida por Pepe, um garçom festeiro, por volta de seus 40 anos, de cabelos escuros e lisos, usando óculos e vestido com uma camisa branca e uma calça preta. “Vamos dançar um samba em sua homenagem”, disse e começou a cantarolar Aquarela do Brasil e a rebolar.

“Manda vir um vinho”, implorei pro Antonio, amigo do meu primo. Cada pessoa que punha o pé na escadaria do restaurante, Pepe se esgoelava: “olha! Temos uma brasileira aqui!” e eu, com cara de quem ainda não comeu e tampouco gostou, dava um risinho sem graça.

Abrimos o vinho e ficamos esperando a famosa zuppa de cozze, um prato feito com frutos do mar, pão e molho picante. As provocações avançaram e os goles de vinho também.

“Prisci, agora é forza Itália” – o Francesco tentava me animar. E lá vinha o Pepe, com uma versão napolitana de alguma música que ele pensava ser brasileira, se chacoalhando todo e fazendo a mesa cair na gargalhada. “Non piangere, bella”.

Lá pelas tantas, levantei da mesa e soltei a clássica frase da derrota “o Brasil está cansado de ganhar… cinco vezes é muito, a gente quis dar uma chance pra vocês” – falei rindo. E antes que viesse o contra-ataque… “agora eu torço pra Itália”, acrescentei. “Bravo, bravo!”, gritaram todos.

Ver o seu time perder num país que ainda tem chances de ganhar a Copa não é a melhor das experiências, ainda mais quando se trata de italianos – fanáticos pelo calcio. O que me restou foi entrar no clima, provocações daqui, provocações dali e, de comum acordo, terminamos a noite em pizza, comendo a maravilhosa sopa de mariscos.

Os garçons rodeavam a nossa mesa, cantarolavam tudo (pouco) que sabiam de música do Brasil, indicavam bares brasileiros, me puxavam pra tirar foto, faziam pose, ofereciam queijo, fruta, mais vinho.

Talvez pra me distrair, depois da “festa”, meu primo sugeriu que caminhássemos pelo centro da cidade e por alguns minutos funcionou. Deslumbrada com igrejas, teatros, com a praça Plebiscito, com os cafés – tão italianos que mesmo se estivessem na Islândia seriam reconhecidos como tal- , esqueci por alguns minutos o sentimento de humilhação.

Me compraram um café exagerado – como tudo por aqui – com Nutella preta e branca e a conversa girou em torno de curiosidades sobre o Brasil. Eu respirei fundo, vi no relógio do celular que já era tarde, logo iria dormir, amanhã seria outro dia.

“Que barulho é esse?”, perguntou a namorada do Francesco. De longe se escutava um batuque… me enchi de esperança. Era som brasileiro, só podia ser! Todos os ocupantes de mesas de cafés se levantaram, quem estava no meio da praça também se aproximou, “finalmente, alguns brasileiros pra eu poder me consolar!” – pensei.

E dobrando a esquina, o grupo apareceu. Umas cinqüenta pessoas vestidas com as cores da França avançavam pela rua, desfilando orgulhosas e tocando o nosso samba para comemorar a vitória francesa.

Antes a noite tivesse terminado com o rebolado desajeitado do Pepe!

 

Forza… Itália?

Priscila Manni em 1 jul 2006 | 174 views |

Quinze minutos pra começar o jogo da Itália contra a Ucrânia. O Francesco pega uma sacola cheia de buzinas e cornetas e o kit de caipirinha que eu trouxe pro pai dele, me chama, e saímos correndo. Nas ruas, uma duplicação da bagunça habitual de Nápoles. Todos correm, todos buzinam, todos gritam. Em vários postes e nas paredes um desenho de uma cruz e um aviso sobre um funeral: “morreu hoje…” e sempre um nome diferente de um jogador da Ucrânia.

Meu primo deixa muito claro de que lado eu devo estar: “Prisci, hoje é forza Itália hein? Amanhã, Forza Brasile!”. Eu, que não entendo tanto assim de futebol, até chuto um palpite: “Sim, sim, forza Itália, hoje vai ser 3 a 0 pra Itália!”. Ele sorri. Eu sinto um calafrio. Torço e não torço. “Seria ótimo ver uma festa dos italianos, mas se a Itália fosse eliminada agora, não chegaria nem perto de uma final contra o Brasil!” – penso.

Chegamos na casa com uns 15 amigos e quatro caixas da pizza de metro – destaque pra pizza de salsicha e batata frita (antes de comentar, lembrei que nós também temos a caipirinha de saquê com morango!) – eles estão eufóricos e já começam com as brincadeirinhas: “o Brasil vai perder, a Itália vai pra final”. Eu engulo seco, disfarço, dou uma risadinha, mas não me agüento muito: “quantas vezes a Itália venceu a Copa do Mundo?” – sinto um prazer inexplicável em fazer essa pergunta.

Lá se vai o primeiro e belo gol. Barulho, muito barulho, fogos, gritos. No intervalo do jogo, o clima hostil é trocado pela “degustação” da caipirinha. Eles adoram, pedem mais. Me perguntam o nome do nosso técnico, conversamos sobre um e outro jogador, sobre as outras copas do mundo. No Brasil, não sei quase nada, mas perto das italianas, sou uma especialista em futebol e eles ficam admirados.

Começa o segundo tempo. Eu falo que estou com calor, vou pra sacada e, secretamente, torço pra Ucrânia virar o jogo. Mas meu palpite – que (eu juro) era só uma brincadeirinha, pra agradar meu primo – se concretiza. Itália, 3, Ucrânia, 0. O Francesco me olha de um jeito estranho e eu tento desvendar se ele, agora, me acha mesmo uma especialista ou uma bruxa.

Saem todos pra sacada, felizes, barulhentos. Começam a zombar – é claro – do jogo do dia seguinte. Eu me seguro, tento ser simpática, falo que torci pra Itália vencer. Eles não dão trégua. Eu apelo: “pô 15 contra 1 não vale… se a final for Itália e Brasil, nem morta vou assistir ao jogo com vocês”. Eles não se rendem, começam a torcer pela França. Meu sangue ferve e eu não me agüento e encarnando um garotinho de 10 anos, eu respondo: “isso… continuem torcendo, amanhã veremos se o Brasil vence ou não!” Só sei que agora não posso ficar na mão…

 

Um pouco do que não conheci

Priscila Manni em 30 jun 2006 | 146 views |

Ele gesticula muito, enche os olhos de lágrimas cada vez que se lembra do passado, gosta de beijar, abraçar e tem um rosto tão sereno que nem parece um napolitano. É careca e o resto de cabelo que sobra é branco, usa uns óculos quadrados e grandes e quando sorri, só aparece um dente.

Ele caminha todas as manhãs e hoje veio me buscar pra andar um pouco com ele. Comigo fala bem devagar, pra que eu entenda e, enquanto fala, eu tento buscar nele um pouco do nono que eu não conheci. “Eu gostava muito de vinho, mas agora tenho que cuidar do coração”, me diz em italiano e eu respondo numa mistura de espanhol, português e italiano: “Zio, cuida bem desse coração, porque minha mãe sente muito a sua falta”.

Minha mãe me contava que o zio Gaspar fazia as vezes do meu nono quando ele viajava pro Brasil e deixava a nona, minha mãe e minhas tias na Itália. Levava pra escola, comprava pão, ajudava no que fosse preciso. “Eu ia levar sua tia Rosa pra ver o namorado e ela ficava toda envergonhada.”, me contou.

Meu nono morreu quando eu tinha 1 ano. Ele era a vida e a única família no Brasil da minha mãe, das minhas tias e da minha avó. Morreu no dia de natal, de um ataque do coração.

Todo mundo descreve o nono Pasquale como um homem incrível, bom caráter, alegre. Nas fotos, ao contrário do tio Gaspar, ele aparece com um vasto cabelo branco, de terno também branco e sempre com um sorriso no rosto. Nunca me saiu da cabeça o quanto seria maravilhoso conhecê-lo. Agora cada minuto que passo ao lado do zio parece que estou tentando resgatar como seria se eu tivesse o nono nesses últimos 23 anos, quando ele me pega pela mão pra atravessar a rua, quando me apresenta com orgulho pros vizinhos, quando enche os olhos de lágrimas e me abraça e me beija tanto.

A verdade é que além da vontade de conhecer o nono, sinto saudades do vovô Tunhão que, por ser do jeito que era, conseguiu preencher o espaço dos dois avós, por ele e pelo nono. Meu avô Manni, que também tinha raízes napolitanas, que teve uma vida extraordinária, que me fez entender o real sentido da palavra “família” e por quem fui tão amada e apaixonada.

Parece que consigo ouvi-lo agora brincando pelo telefone, do seu jeito único, tentando saber se eu estava mesmo bem “Priscila, narizinho arrebitadinho do vovô, olha pra mim!”

Saudades…

 

O coração da Itália

Priscila Manni em 29 jun 2006 | 148 views |

Um calor de 40 graus, um barulho ensurdecedor de gente falando muito alto e carros buzinando, motos tentando se livrar do trânsito, gente andando rápido pelas calçadas estreitas, cheiro de pizza frita e molho vermelho. Assim é o centro de Nápoles – nunca pensei que nada fosse mais italiano. Até o Mc Donald’s não tem cara de Mc Donald’s.

É uma bagunça em que os napolitanos se encontram. Grita daqui, gesticula dali, uma aparente discussão e mais beijos e abraços. A nona dos meus primos, que nem da minha família é, me beija o tempo todo e sorri “che bella”, repete toda vez que desço no primeiro andar do prédio – onde ela mora.

Aqui do terceiro andar, a Ana acena pra todo mundo “ciao, ciao” e conversa, ou melhor, grita pela sacada com a cunhada, que mora no segundo, e qualquer coisa – comida, revista, fotos – ela põe dentro de um balde amarrado numa corda e passa lá pra baixo. O “elevador” improvisado é usado por toda a vizinhança e me fez lembrar das histórias da minha mãe, quando me contava que a minha bisavó descia o balde com lanche de presunto cru e doces enquanto ela brincava na rua.

Minha prima fica preocupada comigo e tenta explicar Nápoles, “aqui tudo vira trabalho, eles inventam de tudo”, “o lixo fica assim acumulado”, “tem muito barulho” e eu – me divertindo com o espírito napolitano – respondo com meu italiano improvisado que em São Paulo também tem sujeira, tem lotação, tem trânsito.

Já levei bronca porque falo “grazie” demais e porque não reclamo. “Prisci, não precisa me agradecer o tempo todo e fala quando alguma coisa não te agrada”, “va bene, zia”, “mas você não tem nada mesmo pra reclamar?”.

 

Em época de Copa, só pode entrar se souber a “senha”

Priscila Manni em 28 jun 2006 | 146 views |

No vôo da Air France o piloto anunciou “senhores passageiros, sinto informar que a França está perdendo da Espanha por 1 x 0”. O embarque foi logo depois do jogo do Brasil contra Gana e as brincadeiras sobre futebol com os brasileiros, que já eram comuns, ganham nesta época de Copa uma dimensão muito maior.

Exemplo disso foram os olhares pra minha camiseta verde e amarela, os sorrisinhos e a brincadeira de um sul-africano que sentou ao meu lado: “esse time do Brasil é terrível, joga muito mal mesmo”, piada rapidamente reprovada pela mulher “ele está brincando, nós torcemos muito pelo Brasil”.

Alguns minutos a mais e o piloto fala em francês, inglês e numa tentativa de português: “temos o prazer de anunciar que a França venceu e disputará a próxima partida com o Brasil.” Palmas.

O clima de festa está por todos os lados e em algumas horas é preciso paciência. No aeroporto Charles de Gaulle em Paris, por exemplo, onde fiz a conexão pra Nápoles, o policial parou os brasileiros um por um e, se divertindo mais do que a fila impaciente, carregada de malas pesadas, dizia: “só pode entrar se souber a senha” e lá iam as tentativas: “Ronaldo”, “non”, “Roberto Carlos”, “non”, “Adriano”, “Allez!!!”

Foi também pelo verde e amarelo que minha família me reconheceu na hora. “Priscila, Priscila”, gritava minha prima Ângela e meu tio Gaspar, com os olhos cheios de lágrimas, me beijou o rosto duas vezes e segurou forte a minha mão, “belíssima como mama”. Debaixo de um calor de 36 graus, o Francesco me ajudou a pôr as malas no carro e do aeroporto viemos direto pra casa deles. Pelas ruas, em casas e sobradinhos, nas calçadas e nos carros, bandeiras da Itália penduradas por todos os lados. “Vai torcer pra quem agora?”, brincou meu primo.

O prédio, bem largo, de três andares, fica num bairro afastado do centro da cidade e é dividido pela mesma família. Tem cara de Itália, com uma larga varanda e um monte de coisas amontoadas: cadeiras, mesas, plantas, cinzeiros.

A Ana me recebeu aos berros. Ela é mãe da Ângela e do Francesco, prima da minha mãe por parte de pai. Uma versão baixinha e de cabelo curto da minha mãe: fala alto, já me chama de “Pri”, se empolga com cada assunto que aparece e logo oferece um café (explicando que o dela é muito melhor que o do Brasil, que, inclusive, ela já experimentou e mais parece chá).

Nas poucas horas que estou aqui, apesar da sonolência por não ter dormido no avião e do fuso horário, já pude perceber que quanto mais beijos e abraços, melhor… pouco importa se é um dos verões mais quentes de todos os tempos, se a roupa gruda no corpo e o suor escorre na testa, os italianos querem conversar de perto, querem mesmo calor humano – o que me faz sentir um pouco menos longe de casa.

 

De malas prontas

Priscila Manni em 27 jun 2006 | 135 views |

“O Francesco é seu primo que vai te pegar no aeroporto, ele é irmão da Ângela e filho da Ana, que é casada com o Pepe e é filha da tia Nanella, irmã do tio Gaspar, que era irmão do seu nono, entendeu?”

Em algumas horas embarco para Nápoles, na Itália. Lá está toda a família da minha mãe, a escola em que ela estudou, a casa em que viveu por 8 anos, os vizinhos, os amigos. Estou indo com duas malas cheinhas de roupas pro verão e pro inverno (já que vou ficar até o fim do ano ou por mais tempo, se assim decidir), uma interminável lista de telefones e nomes (lembrando que parece que existe uma regra na família: quase todo homem que nasce é batizado de Salvatore) que minha mãe preparou pra mim, mas, principalmente, com uma grande vontade de estar num lugar que, apesar de familiar, é novo e desconhecido.

A Itália está na minha vida desde que nasci, quando meu pai e meu avô, um legítimo napolitano que veio tentar a vida no Brasil, discutiam durante os jogos da Copa, quando chegando da escola, lá do hall do prédio, eu já ouvia as músicas italianas num volume que só uma quase-napolitana saudosa consegue escutar, quando me despedi da minha mãe e assisti aos vídeos da visita dela à família, quando ela e minhas três tias trocavam segredos em italiano pra que a gente não entendesse o que elas estavam dizendo.

Desta vez a Itália tem um significado ainda maior. É para onde eu vou em busca de mim mesma, de algo que possa ter ficado perdido, de uma aventura ainda não vivida, de um aprendizado. É pra onde minha inquietação está me levando. Aquele sentimento que você sente algumas vezes na vida e que pra mim veio agora com tanta força que eu simplesmente não pude ignorar.

Agora mesmo sinto um embrulho no estômago, olho pras coisas que aconteceram nesses últimos meses. Larguei emprego, vendi meu carro, zerei minha conta e decidi ir. Ouvi de tudo: “sabe… depois que você envelhece você acaba deixando esses sonhos para trás e aí com conta pra pagar e filho pra sustentar nunca mais faz uma coisa dessas!” ou ainda: “imagina só… largar um emprego desses, ela ganha bem pra idade dela e até aparece na TV!!!”

No meio de várias vozes, pessimistas e otimistas, eu guardei o que meu pai me disse esses dias, quando eu ainda estava confusa, com medo, pensando se deveria mesmo ir ou não.

“Lembrei-me da sua primeira decisão na vida: estávamos em Solemar eu, sua mãe e você passando férias na casa que o vovô tinha quando, por decisão sua exclusivamente, você levantou sozinha do chão e deu seus primeiros passos.

Aquela imagem está gravada na minha mente como se fosse ontem. Eu conversando com a sua mãe no portão olhando para você sentadinha no chão quando de repente você tirou a bunda do chão e veio cambaleando na nossa direção.

Da mesma forma agora, eu fico muito feliz com a sua escolha, portanto, tire a bunda do sofá e vá comprar a sua passagem para a Itália.”

© 2010 Os Levianos – Lavianos e Amigos
Tema por Pasquale Laviano.

         
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