Anatomia de uma piada
Você pode estar triste, nervoso, com fome, bravo, deprimido, mas quando alguém lhe conta uma boa piada, nada disso, importa, tudo é esquecido e a risada vem do fundo da barriga, podendo se transformar em uma larga gargalhada. Rir a bandeiras despregadas, rir-se às baldas. É por isso que eu digo que a piada é a felicidade instantânea. Naquele momento mágico, só o que importa é ouvir o desfecho e nada mais.
E há vários tipos de piadas, assim como há vários tipos de ouvintes.
Há as piadas de salão, as sujas, as discriminatórias que fazem alusão a alguma minoria, há as curtas, as ultra-curtas, as longas, as chatas, as de humor negro e por aí vai.
Mas, o que faz uma piada ser boa, engraçada, capaz de fazer brotar uma risada? Andei pensando e cheguei à conclusão de que, em qualquer caso, o denominador comum é sempre a observação de algo da conduta humana que é posto em destaque, na piada, de alguma maneira, quer seja pelo papagaio, pelo português, pela loira, pelo macaco que fala, pelo canguru, pelo mineirinho, pelo velhinho com Alzheimer, pela prostituta, pela formiguinha etc. Na verdade, a caracterização da piada é uma liberdade poética que o autor tem quando ele a cria, mas, como ela vai ser contada de pessoa a pessoa, alguém, no meio da cadeia, poderá acrescentar ou retirar algo, ou mesmo mudar toda a ambientação da história, desde que o cerne da questão não mude. Quer um exemplo?
Uma vez, perguntaram ao Jô Soares se alguma piada criada por ele havia dado a volta, isto é, se alguém havia contado a ele uma piada de sua autoria. Ele respondeu que sim, a do “Cristo português” que, depois de 2.000 anos resolveu se soltar da cruz, começou pelos braços e caiu pra frente pois se esqueceu de soltar os pés. Só de escrever já tô rindo, imaginem contada por ele. Pois é, acontece que eu já ouvi a mesma piada contada de várias maneiras, inclusive de algumas maneiras impublicáveis. É aquele negócio de “quem conta um conto aumenta um ponto”.
Muita gente gosta de piadas explícitas, fáceis de entender. Eu gosto muito das que fazem pensar e também das que fazem trocadilhos. É interessante como os brasileiros têm o costume de fazer piadas com expressões que não são exatamente trocadilhos, mas que se aproximam bastante da expressão original e que têm graça justamente por isso. Ou descrevem um evento usando exageros extremos ou situações impossíveis, como os gedankenexperiments de Einstein, experimentos mentais impossíveis de serem feitos na prática, mas teoricamente consistentes.
Já os russos têm um humor meio sério, mas com uma particularidade. Nunca vi um palhaço russo encenar um quadro onde a pessoa humana fosse humilhada, embora fosse ridicularizada.
Os japoneses não acham graça em humor negro ou situações que não sejam politicamente corretas.
Os alemães têm um humor um tanto gelado, meio floresta negra. Os suecos não têm humor nenhum e os havaianos gostam mesmo é fazer luau.
Agora, os americanos, estes sim têm um humor, digamos, peculiar. Experimente traduzir uma piada de americano e veja. Os caras ficam rindo à beça e você se sente um idiota pois não viu onde estava a graça. Mas tinha o George Carlin, que era mesmo bom sem contar piada nenhuma (vide YouTube) e tem o Jeff Dunham, ventríloquo, com os seus personagens engraçados, como o Ahmed, o terrorista morto, e o José Jalapeño um personagem mexicano que é uma pimenta vermelha falante (vide YouTube, também). É, às vezes tem alguém que se salva, são as “honrosas exceções”.
E tem nós, os brasileiros. Inigualáveis. Somos o único povo do mundo que faz piada da própria desgraça. O brasileiro está se lascando e arruma um jeito de fazer piada da situação. Os políticos estão roubando deslavadamente, o metrô ruiu e matou cinqüenta, o presidente (fonte inesgotável de piadas) diz que não sabe de nada e o brasileiro inventa uma historieta chística para aliviar o sofrimento. Parabéns, Brasil. Possui um povo ímpar, singular e único para o qual a desgraça pode ser transformada em alegria, cinco minutos após o evento. Será que isso é uma bênção? Ou será imaturidade de não enxergar o alcance dos fatos? Ou será uma enorme capacidade de transubstanciar o pensamento negativo em positivo, a qual não existe em nenhum outro lugar? Espero que alguém dê uma resposta.
É bom quando o momento político está em efervescência, pois ocorrem inúmeras situações ridículas que expõem os políticos e suas mazelas, ótimas matérias-primas para divertidas piadas. Se os candidatos soubessem o que se fala deles durante o período de propaganda eleitoral, nem se atreveriam a se candidatar. Tem alguns que já são piada só de aparecer na TV. Tem cara de carrasco, de puxador de carroça, de marreteiro de carro, de cafetão, de tudo menos probos cidadãos interessados no bem-estar da população.
Quanto a mim, minha mulher diz que não entende por quê acho graça em certas coisas. Imaginem que ela não entende a graça daquela piada do cachorro de português que tem a cara amassada de tando correr atrás de carro parado. E também já criei uma piada que estou aguardando pra ver se dá a volta. Mas não adianta perguntar qual é que eu não falo.
salvadorlaviano@walla.com




















